quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Afago

O abraço que conforta
É o mesmo de quem
Te isola
Maltrata
E faz que vai voltar.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

suas mãos sujas daquilo que você tentou esconder e viciou. eu amo loucamente quando você mostra apenas pra mim seus crimes compensados e seus pecados mais corrompidos. a gente brinda por poder brindar a liberdade de ser esse tipo de pessoa horrível. sem desculpas ou reabilitações. sem ter que precisar limpar bem as mãos pra poder tocar em outras mãos ainda mais sujas ou mal lavadas.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Flâneur(ismo)

Preciso te dizer a verdade por trás dessa cidade:
descendo a rua principal 
cê vai encontrar os índios sentados na calçada,
desconhecidos com os pulmões recheados de flores
expirando através do sol a nudez crua,
pontuando todos os sentimentos na ponta da língua.
eu disse que ali era mais meu lar do que minha casa.
quis alugar o apartamento depois do Banco do Brasil, 
perto da praia, acima da praça onde vi você cantar pela primeira vez,
mas não vim mapear por onde meus pés gastaram a sola.
vim para relembrar a cigana entregando pequenas estrelas de alumínio,
a estátua viva escorrendo, viva, pela calçada. 
o africano ritmando:
- tumbalacatumba tumba tá
no meu ouvido, sobre o som das ondas, sobre os goles de cerveja.

na semana seguinte, acordes de ukulele me empurraram para casa. 
te vi, adeus. 
o ano continua na rotina, longe do mar. 
nada continua tão bonito depois de tantos meses. só você.
espero o teu verão voltar.
 
O termo flâneur vem do francês e tem o significado de "vagabundo", "vadio", " preguiçoso", que por sua vez vem do verbo francês flâner, que significa "para passear". Charles Baudelaire desenvolveu um significado para flâneur de "uma pessoa que anda pela cidade a fim de experimentá-la".

domingo, 4 de maio de 2014

Não lhes trouxe nada

Para os que fazem do veneno, caldo, eu tiro o meu chapéu. E ergo para bem mais além dos gritos dos que, indignados, pensam se fazer ouvir por mentes surdas e corações mesquinhos que estão mais para o alto. Para vocês que dormem sorrindo, o corpo tão fresco quanto os pensamentos vazios, eu estendo o meu tapete puído para sujarem os seus pés. Deitem-se sós, entre vocês! Estarei remando enquanto aceno para os que passam, passaram, puderam passar. Deixarei que zombem de seus calcanhares feridos sem interferir, e também que zombem do fardo em seus ombros que carregam com a gravidade agindo para cima, das olheiras que ganharam suportando demais. Deixarei tudo isso enquanto cavo, cavo, cavo, cavo. Daqueles capazes de se amargurar ou reconhecer, roubei as pás. Mas deles não tirei o dia de amanhã e nem lhes consumi o tempo da maneira como devoro o meu. Para todos os que souberam mendigar por uma chance, dou-lhe minha atenção. E que me levem as esmolas, me arranquem o que restar de bondosa compreensão e fujam sem hesitar.  

Quanto a vocês que me entenderam... 
O meu perdão. 

Não lhes trouxe nada.  

segunda-feira, 10 de março de 2014

Cores

Nos pisos do quintal, os passos resfriavam.
O vento mexia cabelos bagunçados
Transformando tudo em cor
Secando olhos marejados,
Decerto que essa brisa era o antídoto
Para curar as grandes dores internas.
A gente sutilmente lamentava
mesmo se divertindo
se descobrindo
E ninguém ouvia
Ninguém respondia.

O passos ao longe, marcavam ritmos
De uma dança de um indío só
Ao redor de uma fogueira que,
Com as cores,
Se mantinha acesa.
O menino-mestre gritava silenciosamente: "A vida não deve ser triste e solitária, algumas vezes(...)
Vamos compartilhar esse nosso pequeno infinito, com grandes sorrisos.''
E a tribo baixava os olhos numa peleja de palavras.

Bem, aquilo tudo era muito simbólico
Parecia sonho
Cheio de manias repetidas de desejo
Era mais do que apensar um querer
Porque, veja só: até a lua sorria
E depois desaparecia.

Mas não era sonho...

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Algazarra Interior

Já não sei mais o que pensar de nada. Agora está tudo um tumulto, uma multidão no escuro reivindicando uma causa justa, mas dolorosa — infelizmente, para mim. Todos querem sair, eu os quero fora, mas a porta é demasiada estreita para que todos saiam de uma vez. Eles não são pacientes, eu por outro lado também não espero. A urgência é petulante, é parte de nós. Mas estou cansada, exausta de não conseguir abrir de vez essa gaiola e libertar pássaro por pássaro — um por um, até que o cerco que os prendiam esteja aliviado. Pois já tenho tanta dor de cabeça — talvez não literalmente, não sempre — que não suporto mais. Saiam, voem, fujam. Mas não fiquem mais comigo, eu vos liberto.

Fácil seria se meu desejo fosse simplesmente atendido: organizaria uma fila em minha cabeça e cada um iria embora em sua vez. Em vez disso, permanece essa bagunça terrível, esse amontoado de papeis rasgados que formam uma carta sem remetente, mas com destinatários muitos. E tenho uma teoria de que esses ruídos frequentes nos meus ouvidos, quando à noite, onde o silêncio os sopra, seja dos papeis dilacerando, chiando e fazendo da quietude da noite, uma alegoria à tormenta. Como se eu já não tivesse o bastante durante o dia — quando minha cabeça cheia, putrefata, feita aos cacos pelos barulhos urbanos, hora criados, hora reunidos dos momentos mais escuros do dia.

Eu já não aguento nada disso, quero ser imune. Mas custa-me o que não posso prover, pois não sou eu quem decide nada. Aqui sou mera coadjuvante, não sou nada mais que uma personagem muda. Custa-me a voz que por pouco não tenho, e, por falta de uma palavra mais expressiva (o que é um pecado terrível), inspiração — de escrever, de sonhar, de dormir, de respirar, existir [...], que já não me apresenta nenhuma imagem clara do que realmente quero. Quero, mas não sei o que. Aquela vontade interrompida por um “sei lá o que” momentâneo. Eu sinto pena e raiva de mim ao mesmo tempo. É essa uma das causas pelo qual eu já não aguento mais...

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Para sempre nômades do espaço.
Até a extinção da própria raça
Ou até o fim do universo.
Nunca vi tão clara escuridão...